A segunda inteligência
Por Ivonete D. Lucírio com Gisela Heymmann, de Paris
Dois é maior ou menor que cinco? A resposta vem rápida e fácil, não é? O mérito é do inconsciente. Só que ele não é um órgão nem um lugar do cérebro, e sim um método de trabalho mental — usado muito mais do que a própria consciência imagina — para lidar com informações sem precisar tomar uma atitude deliberada. É isso o que acaba de ser provado por uma experiência feita no Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica, na França.
Os cientistas franceses pediram que um grupo de doze voluntários olhasse para a tela de um computador enquanto eram projetados números tão rapidamente que os olhos não conseguiam captar. O resultado, comprovado por um eletroencefalograma, provou que o cérebro não só reconhecia as informações como também as interpretava. Pela primeira vez essa faceta inteligente, já identificada antes por estudos comportamentais, foi registrada fisicamente.
O funcionamento, na surdina, do inconsciente interfere o tempo todo na nossa rotina. "Para desempenhar as atividades mais simples, como caminhar ou bater um papo, o cérebro realiza, com uma velocidade enorme, milhares de processos dos quais nem nos damos conta", explicou à SUPER o psiquiatra Henrique Schützer Del Nero, da Universidade de São Paulo.
Por isso, para as neurociências, o inconsciente é cada vez mais uma ferramenta de trabalho mental que executa tarefas fundamentais — um conceito diferente do estabelecido há 100 anos pelo psicanalista Sigmund Freud.
O que os olhos não vêem e o cérebro sente
O inconsciente não funciona somente como uma caixa em que se depositam informações úteis para futuras atividades mecânicas. "Os resultados preliminares do nosso trabalho demonstram que, além da capacidade de fixar uma imagem, ele é hábil também em executar tarefas sem que o consciente perceba", explicou à SUPER o neurologista Stanislas Dehaene, coordenador da pesquisa realizada pelo instituto francês.
A experiência, na cidade de Orsay, nos arredores de Paris, era simples. Os voluntários tinham que informar se um número apresentado na tela do computador era maior ou menor do que cinco. Dependendo da resposta, apertavam botões com a mão esquerda ou direita (veja detalhes no infográfico). O que não sabiam é que um pouco antes disso era mostrado um outro número por cerca de 50 milissegundos, tempo curto demais para os olhos reterem a informação. Sempre que o flash mostrava um algarismo contraditório com a imagem principal — um maior e o outro menor do que cinco —, o voluntário se atrapalhava e demorava para apertar o botão correto.
A explicação é que o flash, registrado pelo inconsciente, tinha sido classificado e interpretado, confundindo o consciente. É uma prova de que essa função do cérebro não é estática. Ela faz seus próprios julgamentos e dá palpites nas decisões do consciente.
*Fonte: http://super.abril.com.br/busca/?qu=neurologia.